Mais dois dedos de prosa sobre Rua de dentro

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Sexta, 20 março 2020 (sétimo dia de quarentena).

Acabo de passar os olhos nos últimos quatro contos de Rua de Dentro, de Marcelo Moutinho, que faltavam para concluir a leitura dessa excelente prosa. Já havia escrito aqui sobre o livro, afirmando que a meu ver ele representava o assentamento definitivo da voz original do escritor, e esses últimos contos não só reforçaram essa impressão, como também me fizeram refletir sobre o lugar dessa voz no quadro geral da prosa de ficção da atual geração no Brasil.

Após a explosão criativa e o surgimento no pós-Guerra de autores singulares, como Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Antônio Fraga e outros, a prosa brasileira viveu uma onda, a partir da década de 1950, de experimentalismos vanguardistas com a linguagem literária. Experiências nem sempre bem-sucedidas, é preciso dizer. Todo mundo queria ser um Rosa ou uma Clarice, e essa ambição deu forma a exageros que estavam em descompasso com a realidade daqueles anos.

Outros autores, como Graciliano Ramos, Jorge Amado e Antônio Callado, seguiram o caminho de uma prosa refinada e comprometida com a luta social e política, através da denúncia das enormes desigualdades do país. Por esse caminho aproximaram sua escrita de textos sociológicos, no conteúdo, e jornalísticos, na forma. Ao mesmo tempo, “Menos é mais”, o famoso axioma literário em referência aos exageros da linguagem que devem ser evitados, ganhou um novo sentido, alcançando seu ápice: o importante era o conteúdo e, quanto à linguagem, quanto mais invisível, melhor (um dos preceitos básicos do texto jornalístico, na sua meta de objetividade da informação).

Aos poucos houve um afunilamento, em que essa lógica passou a predominar, sobretudo nas editoras e no leitor pouco afeito a navegar por figuras de linguagem e estilos vanguardistas. O texto jornalístico se tornou o parâmetro de qualidade. A “invisibilidade” do estilo passou a constituir, assim, o elemento básico que o editor buscava no escritor. O importante era o conteúdo, não a forma. Correndo o risco de generalizar demais, creio que os experimentalismos se deslocaram para o campo da poesia, enquanto a prosa seguiu o caminho da crítica social e da denúncia das desigualdades, impregnada de uma linguagem jornalística, tudo a ver com o contexto histórico que o país e o mundo viviam naquele momento (e mais tarde nem sequer a crítica social, inibida pela reação às patrulhas ideológicas da década de 1960, como se viu ao longo dos anos 1980-90).

Com boas exceções, esse formato estabeleceu o cânone do pós-Guerra e da era da Guerra Fria, como formato da literatura brasileira. Foram poucos os textos de prosa que se destacaram pela linguagem literária experimental. A escrita ficou definitivamente subordinada (talvez, o melhor fosse dizer “sufocada”) ao conteúdo. Este sim, era garantia de sucesso de vendas do livro, de adaptações para outros formatos, como roteiros audiovisuais, e assim por diante. O tom era de que a literatura brasileira, enfim, entrara em sua “maturidade”; nada mais de ficar brincando com linguagens e estilos, especialmente aqueles em que não há ação, apenas formas literárias.

Pareceu, portanto, lógico pegar emprestado, como técnica, a escrita jornalística, com suas regras de concisão, ordem direta, muito pudor no uso de adjetivos, entre outras normas. Acho que o escritor exemplar desse estilo seria Rubem Fonseca, com um domínio exemplar sobretudo do uso do diálogo para fazer avançar a história. Assim, não há nenhuma surpresa que, por exemplo, a onda do Realismo Fantástico de nossos vizinhos latino-americanos, como Gabriel García Márquez, Julio Cortázar, Juan Rulfo e até mesmo um Vargas Llosa dos primeiros escritos não tenham influenciado mais fortemente os escritores dessas bandas.

A meu ver, lendo autores da presente geração, como Alberto Mussa, Paulo Pires e o próprio Moutinho, vejo que estamos em um novo momento. De modo geral, a ojeriza quanto a vanguardismos permanece, mas os novos escritores já não temem tanto salpicar seus enredos com figuras de linguagem, permitindo que um certo buquê de especiarias ressalte o sabor da história. Não vejo mais ninguém querendo ser um Rosa ou uma Clarice (até porque seria impossível), mas a atual geração tem soltado a voz muito consciente da importância da forma literária. Isso ocorre ainda com certo pudor, o que dá um tom sereno e “natural” a esses experimentos.

E aqui voltamos, enfim, à Rua de Dentro. Lendo esses contos na esteira do livro anterior, Ferrugem, que prenunciava um amadurecimento que o livro atual veio a confirmar, vejo um equilíbrio entre forma e conteúdo. A maneira, por exemplo, como Xangô é evocado no conto Oxê, no desenho de uma jogada de futebol, que amarra por trás uma relação secreta entre o zagueiro e o segurança de estádio estreando numa partida da Seleção. Essa evocação tem a mesma força literária com que o aroma aconchegante do pão da padaria da esquina, em Um dia qualquer, reforça a sensação de contraste entre a frieza cartorial, símbolo da desigualdade social, mas sem precisar recorrer a uma descrição monográfica.

As histórias “triviais” de Moutinho, estórias de rua e do cotidiano da cidade, em que percebe-se o bom legado de um Nelson Rodrigues, ganham força com o uso dessas imagens e aromas sutis, essas espécies de “metáforas situacionais”, como se pode ver no contraste entre uma reunião de confraternização dos colegas de firma e um encontro fortuito no táxi; ou a menina adolescente constrangida, ao ser pega numa situação fetichista, no sentido psicanalítico. Em Retrós e Linhas, vemos o escritor colocar a costureira diante do desafio de fazer seu primeiro vestido de casamento, e assim amarrar uma prosa de erotismo refinado. O estilo de Moutinho aparece ainda de outras formas, como no fim abrupto do último conto, Vanessa, reforçando visceralmente o desfecho, o que é um excelente exemplo da boa mescla de forma e conteúdo e sinal da maturidade do escritor.

A originalidade de Moutinho, a meu ver, está na maneira sutil com que ele amarra forma e conteúdo, permitindo que o leitor, no mesmo conto, leia uma história, sem prejuízo de “sentir” uma outra, esta, em geral, ainda mais profunda.