Começos que me cativam

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Quinta, 2 abril 2020 (vigésimo dia de quarentena).

Relendo Cem anos de solidão. Que início! Talvez essa seja a principal virtude do Gabo. Em seus contos, novelas e romances, a maneira como ele abre suas narrativas traz ao leitor um prazer refinado. Com tal começo, é possível atravessar os longuíssimos parágrafos, que marcaram o estilo do escritor colombiano na juventude de sua carreira. Eu gosto de ler em voz alta, como se fosse um ator estudando o texto (mesmo que tal volume ressoe apenas em minha cabeça), e posso dizer por experiência própria que é preciso ter fôlego para ler seus enredos e, portanto, condições físicas para encarar a saga do clã dos Buendía. Corre-se o risco de morrer afogado em meio ao fluxo de tantas palavras, frases e parágrafos antes de alcançar a outra margem do rio. Creio que essa exigência física e essa correnteza fazem parte da estratégia do autor para mergulhar o leitor na profundeza da história. E, para que dê certo a operação de cativar seu interesse, é necessária uma abertura cativante. Um início vigoroso que o leve a armazenar ar nos pulmões, como fazemos antes de dar um mergulho profundo.

Pensando bem, Juan Rulfo também prima por um estilo marcante na forma de abrir a história, como podemos ler em Pedro Páramo. Vamos juntos com o autor, cativados e, quando nos damos conta, já estamos na página 17. Guimarães Rosa, por sua vez, joga com uma densidade mais entrelaçada, mesclando o enredo (onde várias histórias se cruzam: paixão proibida, guerra, vingança, traição…) com a forma singular de sua prosa, escrita num tom oral. Além do fôlego, é preciso saber cantar o enredo em voz alta. Em vez de nos colocar pra nadar, nos aconchega na rede, o que não significa exclusivamente leveza e lirismo. Há muito sangue e paixão! Tudo contado como se estivéssemos ao redor da fogueira, num lugar equidistante entre a civilização moderna e o sertão selvagem. A viagem de Clarice também é constituída dessa matéria, amarrada a uma abertura fulminante. Sua densidade, porém, se dá no plano da intimidade, do fluxo de consciência, uma subjetividade de quem sente o coração e a mente amarrados à história. É isso que permite um romance que se dá no átimo do gesto de matar um inseto.

Voltando ao Gabo, recomendo O amor nos tempos do cólera, quando ele alcançou, a meu ver, o ápice de sua técnica narrativa. Um enredo que trata também da paixão na dimensão do tempo. Uma boa pedida para esses tempos de coronavírus, isolamento e às vésperas de um mundo novo que se anuncia.

Alguns começos que me tocam:

“Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía recordaria aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo.” (Cem anos de solidão – Gabriel García Márquez).

“- Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja.” (Grande sertão: veredas – João Guimarães Rosa).

“Vim a Comala porque me disseram que aqui vivia meu pai, um tal de Pedro Páramo. Minha mãe que disse. E eu prometi que viria vê-lo quando ela morresse. Apertei-lhe as mãos em sinal de que o faria; ela estava para morrer e eu em situação de prometer-lhe tudo.” (Pedro Páramo – Juan Rulfo).

“—- estou procurando, estou procurando. Estou tentando entender. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi. Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda. Não confio no que me aconteceu.” (A paixão segundo GH – Clarice Lispector).

“Num dia há vida. Um homem, por exemplo, com ótima saúde, nem sequer velho, sem qualquer caso de doença. Tudo é como foi antes, como sempre será. Ele passa um dia após o outro cuidando de suas coisas, sonhando apenas com a vida que se estende à frente. E então, subitamente, acontece a morte. O homem exala um breve suspiro, encolhe-se na cadeira, é a morte.” (O inventor da solidão – Paul Auster).

“Certa noite, há milhares de anos, numa época que não se pode calcular com exartidão, Dédalo, arquiteto e aviador, teve um sonho.” (Sonhos de sonhos – Antonio Tabucchi.