Nova era

Hoje completo 210 dias de confinamento. Após tanto tempo imerso nesse clima de pandemia, percebo um esforço generalizado, inclusive meu próprio, para voltar à “normalidade”, mas me dou conta de que a vida mudou de maneira cabal. Não se trata apenas de um arrepio irracional e intuitivo, mas de uma transformação geológica que se espalha pela cultura dessa era batizada de Antropoceno.

Nesse novo tempo, que não tem nada a ver com minha fantasia do que seria a esperada era de Aquário, estar confinado tornou-se uma das marcas de distinção em relação ao passado. É verdade que muitas pessoas, sentindo-se asfixiadas e claustrofóbicas, estão lotando bares e praias. Mas, num nível mais profundo, minha analista me disse nunca ter ouvido tanto o termo “agorafobia” de seus pacientes, e tenho visto desertas as ruas do meu bairro, mesmo durante os dias de semana.

Ver as ruas vazias não é uma experiência banal. Na atual conjuntura, é até mesmo assombroso. Andar pela cidade, desde a modernidade, é uma marca cultural que define uma forma de ser e uma era. Não à toa, tem sido tema constante a ocupar as mentes mais sensíveis.

A equação matemática que tanto encantou o senso racionalista de Le Corbusier — e que se expressa, por exemplo, pela noção de que a ligação direta entre um ponto e outro é o itinerário mais objetivo — se contrapõe ao sentido de flânerie. Caminhar a esmo, à toa ou, como propôs João do Rio, como um vagabundo, refletindo sobre a vida, começa como um movimento físico. Coloca-se pé ante pé, a respiração ganha ritmo, e o corpo se põe a mover-se. O corpo acha então sua harmonia entre o chão e o céu e nossa alma salta.

Num ensaio sensível, a escritora americana Rebecca Solnit (A arte de caminhar) escreveu: “A história natural da caminhada é aquela da evolução do bípede humano e sua anatomia” (Solnit, 2000. L’art de marcher, p. 9). O caminhar na metrópole nos leva não só por itinerários físicos e concretos, mas igualmente subjetivos. Atravessamos campos, ruelas e becos religiosos, filosóficos, de folia e contrição; mapeamos paisagens e zonas morais e, ao fazê-lo, entramos nos reinos da anatomia, alegoria, dramas e patrimônios.

Robert Ezra Park, o jornalista, sociólogo e filósofo, inventou toda uma ciência para apreender a cidade: a ecologia humana. Compreender o processo de sucessão e as transformações da cidade apazigua nosso espírito diante da realidade incontornável das transformações urbanas e das formas culturais da vida, dando sentidos mais reais às noções de patrimônio e linhagem.
Portanto, estar confinado é bem mais do que um mero desconforto e uma vivência de solidão; é a configuração de um novo tipo de individualidade e restrição. E nesse sentido dá para dizer que a vida mudou radicalmente desde que essa pandemia apareceu na esquina.

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