Do diário do confinamento

QUI, 10.9.2020 (182º dia de confinamento). Os dias que correm se afirmam como “novo normal” e a dura realidade que nos trouxe a pandemia. Uma realidade inédita que já nos alterou para sempre. Por exemplo, escrevo essas linhas em meio a um estranho silêncio na cidade, algo inimaginável há menos de um ano. A esta hora da manhã já estaria meu bairro de Botafogo com suas ruas ruidosamente febris, refletindo parte da efervescência urbana no barulho de carros, motores, buzinas, gritos, alarmes, sirenes e estresse. A algazarra das crianças, hoje confinadas, do Colégio João Saldanha. Parece que estamos num domingo ou feriado. Ouço variadas espécies de pássaros e aves, do bem-te-vi à revoada de maritacas que passam ruidosas por minha janela nas alturas do 20º andar. Isso me faz perceber que estamos numa mistura de floresta e cidade; de rural e urbano; gemeinschaft e gesellschaft… Situamo-nos numa espécie de hiato, na terceira margem do rio, no twilight zone do tempo e do espaço… no limbo entre distintas realidades que se chocam e nos deixam suspensos. Talvez, a angústia que me oprime o peito não se refira a uma ideia penumbrosa de um amanhã cheio de incertezas, onde ao fim nos espera a morte, Shiva cumprindo seu papel no delicado equilíbrio cósmico ao lado de Vishnu e Brahma; mas sim a esse lugar no presente, marcado pela sensação de oco, de vazio, que o deslocamento de uma realidade a outra provoca. Olhando assim, a covid-19 (o desemprego, a solidão…) nada mais é do que a expressão física e mental desse nada; a metáfora de um porvir incerto que começa a se expressar mais nitidamente nas brasas e cinzas do Pantanal e da Amazônia; no extermínio de nossos irmãos índios e residentes de favelas pelo descaso; na ganância e no preconceito; na calamidade climática; nos projetos econômicos liberais fadados ao infortúnio por só beneficiar os podres de ricos; nos líderes populistas, salvadores da pátria e outros místicos; e na ausência de projetos alternativos viáveis e originais daqueles que criticam o sistema… Os vãos dessa pandemia são muitos e se alinham numa profunda crise existencial.

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