O monstro

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Domingo, 5 abril 2020 (vigésimo terceiro dia de quarentena).

A antropologia nos ensina que é relativamente comum que as culturas e sociedades vejam a si próprias como as verdadeiras representantes da humanidade. Os demais homo sapiens seriam apenas “quase humanos”, se muito. Daí viriam expressões como selvagens, desclassificados, subdesenvolvidos, estrangeiros, alienígenas, monstros, entre outras, que, por sua vez, dariam justificativa moral à dominação ou ao extermínio desse “outro”. Este poderia estar distante, organizado em outra cultura, como o indígena; ou próximo, como o morador de rua, o favelado perigoso, enfim, o ignorante das etiquetas mínimas de convivência, aquele que não se encaixa e é, portanto, uma espécie ameaçadora.

Não são poucos os que veem, com razão, essa percepção como raiz de preconceitos de toda sorte, ódio raciais e étnicos e que tais. Exemplos extremos não nos faltam, como as multidões de vítimas de massacres, genocídios, assassinatos de índios, sem-teto, quilombolas, favelados, entre outros, assim como políticas anti-imigração. O exemplo maior, por sua eficiência industrial aplicada ao genocídio do outro, é o Holocausto.

No decorrer da história, em que a supremacia do Ocidente se estabeleceu e consolidou, o mundo conheceu um desenvolvimento sem par. Mas há muito que a chamada era geológica do antropoceno trouxe igualmente desafios que colocam em questão o futuro da vida humana no planeta. O domínio tecnológico e a noção de supremacia sobre as demais espécies, no fim, trouxeram mais riscos do que prosperidade; estimularam e deram eficiência institucional e burocrática ao ódio social, racial, de gênero e étnico a partir de premissas baseadas em discursos de superioridade em relação ao outro e justificaram toda sorte de exploração, bem como provocaram reações extremistas a elas. O liberalismo econômico e a voracidade dos mercados financeiros e seus representantes das esferas de poder geraram miséria e fome, e revelaram a perversidade do modelo. Mas eis que surgem nas últimas décadas sinais de que este é um jogo fadado ao infortúnio para todos.

As geleiras derretendo como sorvete no verão, o aquecimento global, El Niño, as secas, inundações e incêndios, a devastação de florestas e biomas vitais, e, é claro, o surgimento de doenças misteriosas são exemplos que vemos na mídia com frequência crescente. Na verdade, quando se vê a coisa assim, em termos geológicos e antropológicos, podemos compreender que o confinamento que nos mantém prisioneiros em nossas próprias casas (isto é, para quem tem o privilégio de ter uma casa para morar, evidentemente) é mais uma evidência do fracasso de um modelo de vida. Acho que aí reside, mais do que nos números assombrosos de mortes pelo Covid-19, a angústia que abate boa parte das pessoas no mundo inteiro, subitamente confrontadas por esta realidade nefasta. Os sinais da falência do sistema estão aí, por toda parte, nos planos ecológico, biológico, social, econômico, político e até mesmo individual. Essa angústia se alimenta, sobretudo, da incerteza em relação ao futuro e à intuição de que estamos num momento de transformação radical, do tipo: a vida não será mais como antes.

A humanidade está sendo desafiada pelo nosso lado monstro, uma monstruosidade autodestrutiva e inconsequente, para dizer o mínimo. E, a meu ver, é essa lógica que o Grande Mentecapto, sentado no trono do Planalto, representa. Mas também temos nossa parcela de culpa, e o confinamento, mais que um castigo, talvez possa se transformar num instrumento de reflexão crítica e nos ajudar a recuperar uma originalidade perdida (principalmente os mais jovens, que iniciam agora sua jornada) devido à pasteurização da vida num modelo predatório, consumista e insustentável..

Acordei nesse vigésimo terceiro dia de quarentena pensando nessas coisas, estimulado pelo filme Paterson, do Jim Jarmursch, em homenagem ao poeta clássico do cânone americano William Carlos Williams, alguns outros poemas que ando lendo e um ensaio do José Gil sobre o monstro. Vejam só essa passagem: “Provavelmente, o homem só produz monstros por uma única razão: poder pensar a sua própria humanidade. Seria possível traçar a história das diferentes ideias ou definições que o homem se deu de si próprio através das diversas representações da monstruosidade humana que o acompanharam. Que essa humanidade tenha sido definida no universo cristão pela união de uma certa alma e de um certo corpo, que essa definição tenha sido alterada nos séculos XVI e XVII, significa muito simplesmente que foi preciso encontrar primeiro um modelo humano do corpo para lhe fazer aceitar uma alma que o tornasse homem.”

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