Histórias de livros

c36c031e9abd443da69ca3cf3cf3f9b0 (2)Adoro histórias de livros, talvez por isso tenha tantos em casa e viva sempre fuçando em sebos e livrarias atrás de algo interessante. Numa dessas incursões, esbarrei num livro que uniu duas paixões minhas: literatura e antropologia. Com respeito a essas duas disciplinas, sou fã do escritor Paul Auster, autor, entre outros, de O inventor da solidão; e do antropólogo Pierre Clastres, autor de A sociedade contra o Estado e Arqueologia da violência. O primeiro, escritor, tem um tom meio etnográfico em sua forma de narrar; o segundo, antropólogo, traz uma prosa literária à sua etnografia.

Pois bem, há muitos anos, na década de 1990, estava em Nova York, garimpando as estantes empoeiradas de um velho sebo, ali na altura da rua 55 ou 56, quando me deparei com um relato etnográfico do Clastres sobre os índios Guayaki, um grupo nômade da região da Bacia do Plata. Não conhecia esse trabalho do antropólogo francês, que estava traduzido para o inglês.

Quando examinei mais de perto o livro, vi que a tradução do francês tinha sido feita por mais ninguém menos que Paul Auster. E, lendo a introdução ali mesmo, em pé, na livraria, notei que havia na tradução elementos estilísticos de seus romances. Descobri que o escritor nova-iorquino não só é fluente em francês, como era amigo pessoal de Clastres. Não me recordo mais se ele decidiu traduzir o livro por vontade própria ou por pedido do amigo antropólogo. Só me lembro que a decisão de verter para o inglês foi tomada de forma direta, sem mediação ou compromisso com alguma editora.

Quando o texto em inglês ficou pronto, o próprio Auster o levou a algumas editoras americanas, e os originais ficaram para avaliação numa pequena casa editorial dedicada a relatos etnográficos, incluídos aí etnologia indígena da América do Sul. Acontece que, no meio desse processo, a editora fechou as portas e Auster demorou para ir atrás dos originais da tradução. Quando finalmente foi buscar o texto, descobriu que ele havia sido extraviado. Desaparecera, ao que parece, no meio da confusão judicial da falência. Se não me falha a memória, o Clastres morreu nesse período, sem ver aquala obra publicada em inglês.

Alguns anos mais tarde, Auster estava numa livraria de San Francisco, quando o livreiro o reconheceu e disse que tinha algo para ele. Curioso, Auster o seguiu ao escritório da livraria e recebeu um envelope com centenas de páginas datilografadas. Eram os originais da versão em inglês do livro do amigo falecido. Auster já havia desistido de editar o livro, mas tomou aquele reencontro como um sinal e batalhou pela publicação do livro, cujo exemplar estava em minhas mãos naquele sebo de Nova York. Comprei a versão em inglês e, muito tempo depois, em 2011, quando fazia pós-doc em Paris, comprei o original em francês do livro de Clastres, cuja narrativa sobre a vida desses índios é maravilhosa.

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