Sortilégio dos livros

manduka02dNuma entrevista há muitos anos, Egberto Gismonti narrou seu encontro com o pajé Sapaim, durante visita à aldeia Kamaiurá, na região do alto Rio Xingu. Um dia, o velho xamã o convidou para ir à floresta que circundava a aldeia. Ao chegarem ao limite da taba, Sapaim conteve o compositor que, apressadamente seguia para a mata fechada. “Espere”, afirmou sem explicação e ficou contemplando o verde. Passado alguns minutos, ele disse: “Agora sim. Vamos!”. E ambos seguiram então mato adentro. Ao comentar esse relato, Egberto Gismonti concluiu que aquela pausa era necessária para esperar o chamado da mata. Só após a floresta se abrir é que podiam entrar. O que para Sapaim era a expressão do tempo naturalizada pelo dia a dia, para o músico visitante, vindo da cidade grande, ganhava ares de sortilégio, como um ritual necessário para que ambos se preparassem para mudar de ambiente.

Pensei sobre isso outro dia, ao ler um artigo de Milton Hatoum[1] sobre seu encontro com figuras singulares na Manaus de sua juventude ancoradas no sobrado neocolonial da senhora Yasmine, no velho Centro de Manaus. Em especial, o “excêntrico” Monsieur Felix Delatour, um bretão viajante, que sofria de gigantismo, e que se tornara seu professor de francês. Havia ainda o sempre ausente senhor Verne, amigo dos índios e um ativista ambiental avant la lettre, naqueles anos 1950. A própria Yasmine, a matriarca do sobrado, tinha como língua materna o árabe, embora preferisse rezar em francês. Sagaz, ela distinguia os dois estrangeiros com precisão: “Verne viaja no espaço; Delatour, no tempo”, esclarecia ao jovem Hatoum. Já o gigante bretão resumia o duplo benefício de viajar pelo mundo: “além de tornar o ser humano mais silencioso, depura o seu olhar.”

Nas aulas de francês, nada convencionais, o escritor manauara reclamava, apreensivo, que não conseguia entender direito os versos de Verlaine que seu professor lhe pedira para ler. E Delatour o tranquilizava: “Por enquanto, isso é o de menos. O que importa, agora, é encontrar uma outra voz de Verlaine, ou apenas captar o ritmo e a melodia de casa verso.” Gostei muito dessa ideia de o leitor emprestar sua voz ao texto, transformando-o em seu timbre. Já Hatoum compreendera que essa maneira de ler e adentrar num outro idioma (e cultura) era a forma preferida de viajar de Delatour. Não o mochileiro pé-na-estrada, em busca de aventuras e mistérios, mas sim um mergulhador na cultura e realidade do outro, como forma de aprender. E, para isso, é necessário saber o tempo das coisas, as pausas necessárias para entrar na mata fechada de uma outra cultura, de uma outra subjetividade, e confrontar sua identidade pelo contraste com a alteridade inesperada que está adiante, no caminho. E este não precisa ser necessariamente uma estrada concreta. Pode muito bem surgir do universo subjetivo de leituras, como quando se dá uma outra voz a Verlaine. Embora fosse um viajante de aeroporto, gare e porto, acenando adeus com seu chapéu aos que ficavam pelo caminho, Delatour também viajava pelas páginas de livros.

Para quem foi forjado nos tempos do livro e o exercício da leitura era uma espécie de sortilégio delirante, essas considerações são óbvias, a ponto de não pararmos para pensar sobre elas. Mas para aqueles nascidos e criados na era digital, talvez soe um tanto enigmático o fato quase sobrenatural de que os livros também escolhem seus leitores, como a floresta de Sapaim, é preciso esperar que a obra se abra a você, para que se dê a relação. Quantas vezes, por exemplo, peguei o Grande Sertão: Veredas e desisti, até que conseguisse atravessar o Liso do Sussuarão sem morrer de sede? Abandonei muitas leituras simplesmente porque não me entendi com o livro nas mãos. Depois, transcorrido o milagre do tempo, pude degustar o sabor único, como uma iguaria rara, que ficara reservada para o momento preciso.

Manduka (na foto acima) foi, nesse sentido, uma espécie de xamã para mim. Nascido com o dom da voz divina, capaz de colocar drama e sutileza na narração, gostava de ler em voz alta para os amigos, como se fizesse a leitura de uma peça de teatro, dando vida aos personagens e ao enredo. Nunca vou esquecer a tarde em que ele leu para mim o início de Pedro Páramo, fazendo as vozes do narrador e protagonista e de sua mãe moribunda, fazendo-o jurar que procuraria o pai que os abandonara, um tal de Pedro Páramo, que vivia em Comala. Essa narração foi como se Manduka me pegasse pelas mãos e me conduzisse à floresta de Juan Rulfo. Lembro-me também de sua imitação perfeita de Bandeira, recitando de cor a Evocação do Recife, ressuscitando o velho poeta com uma precisão assombrosa.

A morte prematura de Manduka, meu irmão mais velho, me privou dessa rara convivência, dessa sutileza amorosa, formadora de alma, com ares analógicos de século XIX, quando as ocorrências da vida se materializam nas conversas de botequim, nas aulas de francês com estrangeiros gigantes, nas cozinhas e bibliotecas de sobrados coloniais de Manaus, nos encontros de poetas pela boemia de esquecidas cidades tropicais. A relação entre gerações tinha um caráter tutorial, formador, onde a experiência era mediada pela imaginação literária. Um universo tão distinto da atual solidão das redes sociais e mensagens instantâneas, restritas a esparsos caracteres, onde não cabe a experiência humana.

[1] Hatoum, Milton. Reflexão sobre uma viagem sem fim. São Paulo. Revista USP, nº 13, 1992.

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