Sonho com Pessoa

11 fevereiro 2018.

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Tenho tido problemas para dormir. Algo inédito em minha vida. Nos últimos anos, passei a sofrer com variadas formas de insônia, sobretudo no verão carioca, sem a proteção da camada de ozônio. Há dias que desperto às 3h da madrugada e não durmo mais; em outros, acordo a cada meia hora; e há aquelas vezes em que me levanto da cama às 10h, depois de adormecer já dia claro. Há ocasiões em que simplesmente apago, exausto. Outro dia, uma variação inédita: acordei às 5h30, lúcido e cansado. Liguei a TV e estava passando o belo filme de Marcio Debellian, O vento lá fora, que apresenta o encontro de Cleonice Berardinelli e Maria Bethânea com Fernando Pessoa por meio de leituras e comentários. Deixei então os versos do poeta diluírem lentamente as couraças que atormentam o meu sono (e minha vigília). Que delírio! Assisti àquela leitura deitado em minha cama, e o sono veio vindo, vindo, e se instalou, com as vozes de Cleonice e Bethânea soando cada vez mais à distância, como um mantra em meio à vertigem onírica que foi me envolvendo suavemente.

Sonhei então que encontrava Pessoa, em pessoa. Vestido de terno escuro, de corte inglês, impecável. O chapéu, igualmente negro e de aba larga, fazendo sombra ao rosto, donde se destacavam os óculos redondos de aro fino e o bigodinho lusitano, tão up to date naquela era de esplendor da razão, um período que afrontava o sentimento e a intuição, a ponto de o poeta ter que fingir que é dor, a dor que deveras sente… Mas Pessoa esboçava um meio sorriso, expressão da inteligência híbrida dos gênios, e me convidou a caminhar com ele pela calçada daquela metrópole, ponto de encontro de todos os estrangeiros. Demos alguns passos e ele me apontou um cobertor esfarrapado, ao chão, quase à esquina, e me disse com voz solene de poeta:

“Amei tanto este cobertor e mantive-o por tanto tempo, até que as traças o devoraram. E, agora que ele se foi, esqueci-me completamente dele!”

Olhei, comovido, para o farrapo jogado ao rés do lixo, e reconheci meu próprio cobertor, com o qual minha mãe me cobrira na infância e me deparei só em meio à cidade… então acordei. Sentia uma tristeza resignada, mas estava mais leve. Pensei nos ciclos de vida e morte. Atribuí o sonho à perda de um amigo no voo da Chapecoense e percebi que a tragédia que comoveu o país remexeu e acelerou o processo de cicatrização do luto que venho cozinhando inconscientemente nos últimos três anos, após as mortes de meu pai e minha mãe, com intervalo de um mês. Freud tem razão: o luto é uma dor que dói fora de nós; já a melancolia, dói dentro.

Acho que a bela metáfora do cobertor no sonho, a mensagem que Pessoa, com seu sorriso sacana, me passou foi exatamente esse processo de exumação, de resignação e de compreensão da perda. Processo sofrido, doloroso, mas que está fora, faz parte do ciclo natural da vida. E o cobertor que protege a infância, como algo mágico, aconchegante e poderoso, como o amor da mãe, se desfaz, puído pelo tempo. Mas, se deixarmos, a vida nos toma pelas mãos e seguimos adiante.

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