Clube da Esquina

4 fevereiro 2018.

clube da esquina0
A capa do Clube da Esquina, sem o nome do disco e dos artistas, revolucionou a iconografia da MPB. Foto: Cafi

Não sei se de fato minha geração é aquela in between, forjada no hiato de grandes momentos ou se todas as gerações trazem essa sensação de bonde perdido da História. Não sei nem mesmo se a síntese grandiosa que marcará o nosso tempo só poderá ter contornos “quando for depois, e não estivermos mais aqui”, ou, se estivermos, não nos importemos mais com isso, em nossos dias letárgicos de desaparecimento.

Quando me percebi gente, os Beatles estavam se separando; Hendrix e Joplin já haviam desencarnados em seus excessos; Woodstock deixara apenas resíduos de lama; Caetano e Gil já tinham sido vaiados; Chega de saudade já enterrara o passado grandiloquente do cantor empostado; e compositores, poetas e escritores viviam o desterro. Estávamos asfixiados por uma ditadura militar brutal, conspirando em busca de brechas para respirar.

Jovem demais, entrando na adolescência, via minha admiração oscilar entre a luta armada e o desbunde. Flertava com os dois campos, cheio de admiração por Che e Bob Dylan. Sobrevivia aos dias nesse campo intermediário, que me permitia transitar por universos tão díspares e desfrutar, meio esquizofrenicamente, de suas verdades e valores.

Então, aos 12 anos, saiu o Clube da Esquina, a experiência sonora e poética de Bituca e Lô Borges. Era a minha trilha sonora e de muitos de meus contemporâneos. Para além da qualidade musical e da densidade poética das letras, repletas de metáforas de estrada, propícias à ideia de exílio. Era esse sentido mais geral, além da qualidade técnica, que o disco duplo apresentava à minha geração.

A imagem da capa registrada por Cafi traduzia tudo isso: tínhamos, enfim, nossa existência confirmada por aquela música, que mesclava antropofagicamente o cool jazz e a bossa nova dos anos 1950, com o rock dos Beatles e a toada mineira, incluindo ainda pitadas de uma sonoridade latino-americana, até então ausente no país. O Clube nos deu nossa trilha sonora e, com ela, o sentido de pertencimento e identidade, e nos preparou para o que viria depois.

 

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