Ode à solidão*

10 agosto 2017.

O luto é uma espécie de alucinação demorada, às vezes até mesmo suave, que se instala num canto da alma e ali permanece. Passamos a caminhar a dois passos acima do chão e o terreno, antes firme, torna-se para sempre impreciso. Após o impacto inicial, duro e seco, que a morte produz, nosso espírito vai sendo tomado por um torpor feito de sucessões de lembranças até ser completamente absorvido numa bruma abstrata que quase equivale a um esquecimento. Mas essa energia feita de vácuos se mantém latente, pronta a emergir com uma força surpreendente, capaz de nos deslocar no tempo e no espaço. Ela é tanto mais poderosa quanto maior é a sensação de perda real, pois a morte, e seus equivalentes, como um rompimento amoroso, não se restringem à mera saída de cena dos seres que amamos na complexidade dos afetos, mas também porque, com o seu desaparecimento, também somem, ou pelo menos se transformam, pessoas, universos e histórias.

Nesse sentido, a morte é sempre um evento de proporções intimamente grandiosas, a maior parte das vezes vivida como uma implosão silenciosa e profunda. Ficamos exilados em nós mesmos, sozinhos, remoendo emoções de perda num mundo novo e desconhecido, em meio à mais intensa saudade, alucinando nostalgias até mesmo de coisas que nem sequer ocorreram. Nesse processo, consertamos falas, ajeitamos cenas, redefinimos situações vividas e nos remediamos e fazemos as pazes com nossos amados na imaginação, afirmando coisas nunca antes ditas àqueles que partiram, num golpe do destino, deixando-nos para trás. Eles se vão e levam parte de nosso mundo com eles. O que fica? Restos, numa terra arrasada. O luto nos torna estrangeiros, em permanente estado de degredo, sem sair do lugar.

Com a partida dos meus pais, perdi igualmente minha Ítaca, uma nação feita de afetos, sensações, cheiros, tato… um misto de aconchego, acolhimento e intimidade… um lugar onde somos forjados e aprendemos a ser. Esse território do sentimento é uma bússola naturalizada, que toma a forma de presságios, instinto, intuições, lembranças, entre outros sentimentos, e aflora de repente. Outro dia mesmo, ao dobrar uma esquina, a incidência da luz da tarde, adocicada por um aroma de café, que provinha de um quiosque vagabundo, me transportou automaticamente para um tempo e um lugar desaparecidos com meu pai. Foi um susto aquela nitidez toda, agudizada pela saudade. Um sortilégio que me transportou para próximo dele, ao mesmo tempo que me dava a clara percepção de sua ausência absoluta. Este susto fugidio é exatamente o tipo de alucinação a que me referi antes.

Minha mãe, às vezes, aparece assim, encantada, aparentemente do nada, na intensidade nostálgica da dor da perda. Qualquer coisa pode ser o gatilho: um sonho, a leitura de um verso, um cheiro. Mas, venha de onde vier, é uma experiência visceral, uma vez que parte de mim é feita de ambos. Tal transmutação em seres encantados me lembra aspectos cosmológicos de alguns grupos indígenas, que conversam com seus mortos, parentes que, depois que partiram, permanecem por perto, ao redor, e, com as ervas certas e os ritos prescritos no rigor da tradição, são invocados em determinadas situações. Ou talvez, tudo isso seja apenas o nosso psiquismo tentando dar conta do luto e da constatação da morte como uma experiência incontornável.

 

(*) Trecho de “Ode à solidão”, reflexões sobre o luto.

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