Bruta flor 2

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O mergulho no escuro,
bem além das estrelas,
é de tal concretude
que me cala, reverente.
Não a ideia do choque,
o irremediável fim,
mas o contraste duro
entre pura delicadeza
e a realidade vertiginosa.
Num suspiro afogado
em rarefeito sopro
vejo suas personagens,
da puta à esquina
à maternal no ninho
servindo o chá das cinco,
sorvendo desejo em frases.
A mão leve e desossada
o feminino, enfim, inteiro,
o tanto, pouco, que te leva
à janela além do vazio.
A meu modo, salto com você
quando seu gesto abrupto
torna vã a ideia de amparo.

Rio, 19.5.2020 (67º dia de confinamento)
Para Ana C.

Bruta flor

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Por horas a fio
olho com você
o corpo de um poema
Espio até sumir no oco
o sangue que escorre
da gengiva onde
se perdeu o grito
disperso no teto azul.
Feito de salto e lírica
no filete entre dentes
é o que nos resta
de cidade e desejo
na densidade concreta
que nos perde de vista

Rio, 16.5.2020 (64º dia de confinamento)
Para Ana C.

O monstro

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Domingo, 5 abril 2020 (vigésimo terceiro dia de quarentena).

A antropologia nos ensina que é relativamente comum que as culturas e sociedades vejam a si próprias como as verdadeiras representantes da humanidade. Os demais homo sapiens seriam apenas “quase humanos”, se muito. Daí viriam expressões como selvagens, desclassificados, subdesenvolvidos, estrangeiros, alienígenas, monstros, entre outras, que, por sua vez, dariam justificativa moral à dominação ou ao extermínio desse “outro”. Este poderia estar distante, organizado em outra cultura, como o indígena; ou próximo, como o morador de rua, o favelado perigoso, enfim, o ignorante das etiquetas mínimas de convivência, aquele que não se encaixa e é, portanto, uma espécie ameaçadora.

Não são poucos os que veem, com razão, essa percepção como raiz de preconceitos de toda sorte, ódio raciais e étnicos e que tais. Exemplos extremos não nos faltam, como as multidões de vítimas de massacres, genocídios, assassinatos de índios, sem-teto, quilombolas, favelados, entre outros, assim como políticas anti-imigração. O exemplo maior, por sua eficiência industrial aplicada ao genocídio do outro, é o Holocausto.

No decorrer da história, em que a supremacia do Ocidente se estabeleceu e consolidou, o mundo conheceu um desenvolvimento sem par. Mas há muito que a chamada era geológica do antropoceno trouxe igualmente desafios que colocam em questão o futuro da vida humana no planeta. O domínio tecnológico e a noção de supremacia sobre as demais espécies, no fim, trouxeram mais riscos do que prosperidade; estimularam e deram eficiência institucional e burocrática ao ódio social, racial, de gênero e étnico a partir de premissas baseadas em discursos de superioridade em relação ao outro e justificaram toda sorte de exploração, bem como provocaram reações extremistas a elas. O liberalismo econômico e a voracidade dos mercados financeiros e seus representantes das esferas de poder geraram miséria e fome, e revelaram a perversidade do modelo. Mas eis que surgem nas últimas décadas sinais de que este é um jogo fadado ao infortúnio para todos.

As geleiras derretendo como sorvete no verão, o aquecimento global, El Niño, as secas, inundações e incêndios, a devastação de florestas e biomas vitais, e, é claro, o surgimento de doenças misteriosas são exemplos que vemos na mídia com frequência crescente. Na verdade, quando se vê a coisa assim, em termos geológicos e antropológicos, podemos compreender que o confinamento que nos mantém prisioneiros em nossas próprias casas (isto é, para quem tem o privilégio de ter uma casa para morar, evidentemente) é mais uma evidência do fracasso de um modelo de vida. Acho que aí reside, mais do que nos números assombrosos de mortes pelo Covid-19, a angústia que abate boa parte das pessoas no mundo inteiro, subitamente confrontadas por esta realidade nefasta. Os sinais da falência do sistema estão aí, por toda parte, nos planos ecológico, biológico, social, econômico, político e até mesmo individual. Essa angústia se alimenta, sobretudo, da incerteza em relação ao futuro e à intuição de que estamos num momento de transformação radical, do tipo: a vida não será mais como antes.

A humanidade está sendo desafiada pelo nosso lado monstro, uma monstruosidade autodestrutiva e inconsequente, para dizer o mínimo. E, a meu ver, é essa lógica que o Grande Mentecapto, sentado no trono do Planalto, representa. Mas também temos nossa parcela de culpa, e o confinamento, mais que um castigo, talvez possa se transformar num instrumento de reflexão crítica e nos ajudar a recuperar uma originalidade perdida (principalmente os mais jovens, que iniciam agora sua jornada) devido à pasteurização da vida num modelo predatório, consumista e insustentável..

Acordei nesse vigésimo terceiro dia de quarentena pensando nessas coisas, estimulado pelo filme Paterson, do Jim Jarmursch, em homenagem ao poeta clássico do cânone americano William Carlos Williams, alguns outros poemas que ando lendo e um ensaio do José Gil sobre o monstro. Vejam só essa passagem: “Provavelmente, o homem só produz monstros por uma única razão: poder pensar a sua própria humanidade. Seria possível traçar a história das diferentes ideias ou definições que o homem se deu de si próprio através das diversas representações da monstruosidade humana que o acompanharam. Que essa humanidade tenha sido definida no universo cristão pela união de uma certa alma e de um certo corpo, que essa definição tenha sido alterada nos séculos XVI e XVII, significa muito simplesmente que foi preciso encontrar primeiro um modelo humano do corpo para lhe fazer aceitar uma alma que o tornasse homem.”

Começos que me cativam

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Quinta, 2 abril 2020 (vigésimo dia de quarentena).

Relendo Cem anos de solidão. Que início! Talvez essa seja a principal virtude do Gabo. Em seus contos, novelas e romances, a maneira como ele abre suas narrativas traz ao leitor um prazer refinado. Com tal começo, é possível atravessar os longuíssimos parágrafos, que marcaram o estilo do escritor colombiano na juventude de sua carreira. Eu gosto de ler em voz alta, como se fosse um ator estudando o texto (mesmo que tal volume ressoe apenas em minha cabeça), e posso dizer por experiência própria que é preciso ter fôlego para ler seus enredos e, portanto, condições físicas para encarar a saga do clã dos Buendía. Corre-se o risco de morrer afogado em meio ao fluxo de tantas palavras, frases e parágrafos antes de alcançar a outra margem do rio. Creio que essa exigência física e essa correnteza fazem parte da estratégia do autor para mergulhar o leitor na profundeza da história. E, para que dê certo a operação de cativar seu interesse, é necessária uma abertura cativante. Um início vigoroso que o leve a armazenar ar nos pulmões, como fazemos antes de dar um mergulho profundo.

Pensando bem, Juan Rulfo também prima por um estilo marcante na forma de abrir a história, como podemos ler em Pedro Páramo. Vamos juntos com o autor, cativados e, quando nos damos conta, já estamos na página 17. Guimarães Rosa, por sua vez, joga com uma densidade mais entrelaçada, mesclando o enredo (onde várias histórias se cruzam: paixão proibida, guerra, vingança, traição…) com a forma singular de sua prosa, escrita num tom oral. Além do fôlego, é preciso saber cantar o enredo em voz alta. Em vez de nos colocar pra nadar, nos aconchega na rede, o que não significa exclusivamente leveza e lirismo. Há muito sangue e paixão! Tudo contado como se estivéssemos ao redor da fogueira, num lugar equidistante entre a civilização moderna e o sertão selvagem. A viagem de Clarice também é constituída dessa matéria, amarrada a uma abertura fulminante. Sua densidade, porém, se dá no plano da intimidade, do fluxo de consciência, uma subjetividade de quem sente o coração e a mente amarrados à história. É isso que permite um romance que se dá no átimo do gesto de matar um inseto.

Voltando ao Gabo, recomendo O amor nos tempos do cólera, quando ele alcançou, a meu ver, o ápice de sua técnica narrativa. Um enredo que trata também da paixão na dimensão do tempo. Uma boa pedida para esses tempos de coronavírus, isolamento e às vésperas de um mundo novo que se anuncia.

Alguns começos que me tocam:

“Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía recordaria aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo.” (Cem anos de solidão – Gabriel García Márquez).

“- Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja.” (Grande sertão: veredas – João Guimarães Rosa).

“Vim a Comala porque me disseram que aqui vivia meu pai, um tal de Pedro Páramo. Minha mãe que disse. E eu prometi que viria vê-lo quando ela morresse. Apertei-lhe as mãos em sinal de que o faria; ela estava para morrer e eu em situação de prometer-lhe tudo.” (Pedro Páramo – Juan Rulfo).

“—- estou procurando, estou procurando. Estou tentando entender. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi. Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda. Não confio no que me aconteceu.” (A paixão segundo GH – Clarice Lispector).

“Num dia há vida. Um homem, por exemplo, com ótima saúde, nem sequer velho, sem qualquer caso de doença. Tudo é como foi antes, como sempre será. Ele passa um dia após o outro cuidando de suas coisas, sonhando apenas com a vida que se estende à frente. E então, subitamente, acontece a morte. O homem exala um breve suspiro, encolhe-se na cadeira, é a morte.” (O inventor da solidão – Paul Auster).

“Certa noite, há milhares de anos, numa época que não se pode calcular com exartidão, Dédalo, arquiteto e aviador, teve um sonho.” (Sonhos de sonhos – Antonio Tabucchi.

Mais dois dedos de prosa sobre Rua de dentro

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Sexta, 20 março 2020 (sétimo dia de quarentena).

Acabo de passar os olhos nos últimos quatro contos de Rua de Dentro, de Marcelo Moutinho, que faltavam para concluir a leitura dessa excelente prosa. Já havia escrito aqui sobre o livro, afirmando que a meu ver ele representava o assentamento definitivo da voz original do escritor, e esses últimos contos não só reforçaram essa impressão, como também me fizeram refletir sobre o lugar dessa voz no quadro geral da prosa de ficção da atual geração no Brasil.

Após a explosão criativa e o surgimento no pós-Guerra de autores singulares, como Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Antônio Fraga e outros, a prosa brasileira viveu uma onda, a partir da década de 1950, de experimentalismos vanguardistas com a linguagem literária. Experiências nem sempre bem-sucedidas, é preciso dizer. Todo mundo queria ser um Rosa ou uma Clarice, e essa ambição deu forma a exageros que estavam em descompasso com a realidade daqueles anos.

Outros autores, como Graciliano Ramos, Jorge Amado e Antônio Callado, seguiram o caminho de uma prosa refinada e comprometida com a luta social e política, através da denúncia das enormes desigualdades do país. Por esse caminho aproximaram sua escrita de textos sociológicos, no conteúdo, e jornalísticos, na forma. Ao mesmo tempo, “Menos é mais”, o famoso axioma literário em referência aos exageros da linguagem que devem ser evitados, ganhou um novo sentido, alcançando seu ápice: o importante era o conteúdo e, quanto à linguagem, quanto mais invisível, melhor (um dos preceitos básicos do texto jornalístico, na sua meta de objetividade da informação).

Aos poucos houve um afunilamento, em que essa lógica passou a predominar, sobretudo nas editoras e no leitor pouco afeito a navegar por figuras de linguagem e estilos vanguardistas. O texto jornalístico se tornou o parâmetro de qualidade. A “invisibilidade” do estilo passou a constituir, assim, o elemento básico que o editor buscava no escritor. O importante era o conteúdo, não a forma. Correndo o risco de generalizar demais, creio que os experimentalismos se deslocaram para o campo da poesia, enquanto a prosa seguiu o caminho da crítica social e da denúncia das desigualdades, impregnada de uma linguagem jornalística, tudo a ver com o contexto histórico que o país e o mundo viviam naquele momento (e mais tarde nem sequer a crítica social, inibida pela reação às patrulhas ideológicas da década de 1960, como se viu ao longo dos anos 1980-90).

Com boas exceções, esse formato estabeleceu o cânone do pós-Guerra e da era da Guerra Fria, como formato da literatura brasileira. Foram poucos os textos de prosa que se destacaram pela linguagem literária experimental. A escrita ficou definitivamente subordinada (talvez, o melhor fosse dizer “sufocada”) ao conteúdo. Este sim, era garantia de sucesso de vendas do livro, de adaptações para outros formatos, como roteiros audiovisuais, e assim por diante. O tom era de que a literatura brasileira, enfim, entrara em sua “maturidade”; nada mais de ficar brincando com linguagens e estilos, especialmente aqueles em que não há ação, apenas formas literárias.

Pareceu, portanto, lógico pegar emprestado, como técnica, a escrita jornalística, com suas regras de concisão, ordem direta, muito pudor no uso de adjetivos, entre outras normas. Acho que o escritor exemplar desse estilo seria Rubem Fonseca, com um domínio exemplar sobretudo do uso do diálogo para fazer avançar a história. Assim, não há nenhuma surpresa que, por exemplo, a onda do Realismo Fantástico de nossos vizinhos latino-americanos, como Gabriel García Márquez, Julio Cortázar, Juan Rulfo e até mesmo um Vargas Llosa dos primeiros escritos não tenham influenciado mais fortemente os escritores dessas bandas.

A meu ver, lendo autores da presente geração, como Alberto Mussa, Paulo Pires e o próprio Moutinho, vejo que estamos em um novo momento. De modo geral, a ojeriza quanto a vanguardismos permanece, mas os novos escritores já não temem tanto salpicar seus enredos com figuras de linguagem, permitindo que um certo buquê de especiarias ressalte o sabor da história. Não vejo mais ninguém querendo ser um Rosa ou uma Clarice (até porque seria impossível), mas a atual geração tem soltado a voz muito consciente da importância da forma literária. Isso ocorre ainda com certo pudor, o que dá um tom sereno e “natural” a esses experimentos.

E aqui voltamos, enfim, à Rua de Dentro. Lendo esses contos na esteira do livro anterior, Ferrugem, que prenunciava um amadurecimento que o livro atual veio a confirmar, vejo um equilíbrio entre forma e conteúdo. A maneira, por exemplo, como Xangô é evocado no conto Oxê, no desenho de uma jogada de futebol, que amarra por trás uma relação secreta entre o zagueiro e o segurança de estádio estreando numa partida da Seleção. Essa evocação tem a mesma força literária com que o aroma aconchegante do pão da padaria da esquina, em Um dia qualquer, reforça a sensação de contraste entre a frieza cartorial, símbolo da desigualdade social, mas sem precisar recorrer a uma descrição monográfica.

As histórias “triviais” de Moutinho, estórias de rua e do cotidiano da cidade, em que percebe-se o bom legado de um Nelson Rodrigues, ganham força com o uso dessas imagens e aromas sutis, essas espécies de “metáforas situacionais”, como se pode ver no contraste entre uma reunião de confraternização dos colegas de firma e um encontro fortuito no táxi; ou a menina adolescente constrangida, ao ser pega numa situação fetichista, no sentido psicanalítico. Em Retrós e Linhas, vemos o escritor colocar a costureira diante do desafio de fazer seu primeiro vestido de casamento, e assim amarrar uma prosa de erotismo refinado. O estilo de Moutinho aparece ainda de outras formas, como no fim abrupto do último conto, Vanessa, reforçando visceralmente o desfecho, o que é um excelente exemplo da boa mescla de forma e conteúdo e sinal da maturidade do escritor.

A originalidade de Moutinho, a meu ver, está na maneira sutil com que ele amarra forma e conteúdo, permitindo que o leitor, no mesmo conto, leia uma história, sem prejuízo de “sentir” uma outra, esta, em geral, ainda mais profunda.

Outono

5 dezembro 2018.

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Nesses dias letárgicos, quando uma etapa inédita da vida se abre, me encontro num redemoinho, no meio de furacões inéditos. Avisto, com surpreendente serenidade, uma espécie de outono, o couro da pele ajustado às perdas e à solidão. Após tanto luto, não desconheço mais a resignação. Passeio em campos de nostalgia como um viciado, num êxtase quase lisérgico, mas saboreio igualmente o agora com surpreendente avidez. Uma esperança suave como um pressentimento traz um fio de infância, quando me sentia integrado ao universo. Uma fresta de luz, que me atrai como um sol.

 

Um quitinete à lá Lévi-Strauss

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Claude Lévi-Strauss possuía 12 mil livros na biblioteca de sua casa, no 16eme arrondissement, além de objetos de inúmeras culturas coletados por ele e outros etnólogos, a tal ponto que, segundo o pai da antropologia estrutural, ele poderia dar a volta ao mundo sem sair daquela sala. Um mundo não convencional ou turístico, acrescente-se.

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Mil vezes mais modesto, tenho em torno de 1.200 livros, que extrapolam o espaço do quarto-e-sala alugado em Botafogo, onde vivo, e que fazem com que a casa tenha um ar de bagunça estrutural, para continuarmos no universo de nosso antropólogo, morto em 2009, aos 101 anos. Tenho algumas peças etnográficas, como cestos ianomâmi, esteira kaiapó; um pedaço de janela do Museu Nacional, que ia ser queimado, em 1994, devido a uma infestação de cupim (podemos dizer que esta peça escapou duas vezes do fogo…); uma estatueta da Ilha de Páscoa, outra em ébano, da Nigéria, comprada num mercado de pulgas, em Nova York; além de algumas máscaras africanas e uma sandinista.

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Os quadros são de amigos, inclusive alguns raros de Manduka, do artista argentino Norberto Onofre, e fotos e desenhos meus, emoldurados. Mas o grosso é composto de livros, CDs e discos, alguns deles raros.  Enquanto Lévi-Strauss possuía uma escrivaninha situada à esquerda da sala, próximo à janela, eu tenho uma mesa de madeira que serve de escrivaninha e de mesa de jantar, quando recebo os amigos, o que tem ocorrido cada vez mais raramente, já que esses objetos acabaram por ocupar toda a casa, sem que eu percebesse.

É em meio a esse universo sem fim que tenho passado boa parte do meu tempo.

 

Histórias de livros

c36c031e9abd443da69ca3cf3cf3f9b0 (2)Adoro histórias de livros, talvez por isso tenha tantos em casa e viva sempre fuçando em sebos e livrarias atrás de algo interessante. Numa dessas incursões, esbarrei num livro que uniu duas paixões minhas: literatura e antropologia. Com respeito a essas duas disciplinas, sou fã do escritor Paul Auster, autor, entre outros, de O inventor da solidão; e do antropólogo Pierre Clastres, autor de A sociedade contra o Estado e Arqueologia da violência. O primeiro, escritor, tem um tom meio etnográfico em sua forma de narrar; o segundo, antropólogo, traz uma prosa literária à sua etnografia.

Pois bem, há muitos anos, na década de 1990, estava em Nova York, garimpando as estantes empoeiradas de um velho sebo, ali na altura da rua 55 ou 56, quando me deparei com um relato etnográfico do Clastres sobre os índios Guayaki, um grupo nômade da região da Bacia do Plata. Não conhecia esse trabalho do antropólogo francês, que estava traduzido para o inglês.

Quando examinei mais de perto o livro, vi que a tradução do francês tinha sido feita por mais ninguém menos que Paul Auster. E, lendo a introdução ali mesmo, em pé, na livraria, notei que havia na tradução elementos estilísticos de seus romances. Descobri que o escritor nova-iorquino não só é fluente em francês, como era amigo pessoal de Clastres. Não me recordo mais se ele decidiu traduzir o livro por vontade própria ou por pedido do amigo antropólogo. Só me lembro que a decisão de verter para o inglês foi tomada de forma direta, sem mediação ou compromisso com alguma editora.

Quando o texto em inglês ficou pronto, o próprio Auster o levou a algumas editoras americanas, e os originais ficaram para avaliação numa pequena casa editorial dedicada a relatos etnográficos, incluídos aí etnologia indígena da América do Sul. Acontece que, no meio desse processo, a editora fechou as portas e Auster demorou para ir atrás dos originais da tradução. Quando finalmente foi buscar o texto, descobriu que ele havia sido extraviado. Desaparecera, ao que parece, no meio da confusão judicial da falência. Se não me falha a memória, o Clastres morreu nesse período, sem ver aquala obra publicada em inglês.

Alguns anos mais tarde, Auster estava numa livraria de San Francisco, quando o livreiro o reconheceu e disse que tinha algo para ele. Curioso, Auster o seguiu ao escritório da livraria e recebeu um envelope com centenas de páginas datilografadas. Eram os originais da versão em inglês do livro do amigo falecido. Auster já havia desistido de editar o livro, mas tomou aquele reencontro como um sinal e batalhou pela publicação do livro, cujo exemplar estava em minhas mãos naquele sebo de Nova York. Comprei a versão em inglês e, muito tempo depois, em 2011, quando fazia pós-doc em Paris, comprei o original em francês do livro de Clastres, cuja narrativa sobre a vida desses índios é maravilhosa.

Sortilégio dos livros

manduka02dNuma entrevista há muitos anos, Egberto Gismonti narrou seu encontro com o pajé Sapaim, durante visita à aldeia Kamaiurá, na região do alto Rio Xingu. Um dia, o velho xamã o convidou para ir à floresta que circundava a aldeia. Ao chegarem ao limite da taba, Sapaim conteve o compositor que, apressadamente seguia para a mata fechada. “Espere”, afirmou sem explicação e ficou contemplando o verde. Passado alguns minutos, ele disse: “Agora sim. Vamos!”. E ambos seguiram então mato adentro. Ao comentar esse relato, Egberto Gismonti concluiu que aquela pausa era necessária para esperar o chamado da mata. Só após a floresta se abrir é que podiam entrar. O que para Sapaim era a expressão do tempo naturalizada pelo dia a dia, para o músico visitante, vindo da cidade grande, ganhava ares de sortilégio, como um ritual necessário para que ambos se preparassem para mudar de ambiente.

Pensei sobre isso outro dia, ao ler um artigo de Milton Hatoum[1] sobre seu encontro com figuras singulares na Manaus de sua juventude ancoradas no sobrado neocolonial da senhora Yasmine, no velho Centro de Manaus. Em especial, o “excêntrico” Monsieur Felix Delatour, um bretão viajante, que sofria de gigantismo, e que se tornara seu professor de francês. Havia ainda o sempre ausente senhor Verne, amigo dos índios e um ativista ambiental avant la lettre, naqueles anos 1950. A própria Yasmine, a matriarca do sobrado, tinha como língua materna o árabe, embora preferisse rezar em francês. Sagaz, ela distinguia os dois estrangeiros com precisão: “Verne viaja no espaço; Delatour, no tempo”, esclarecia ao jovem Hatoum. Já o gigante bretão resumia o duplo benefício de viajar pelo mundo: “além de tornar o ser humano mais silencioso, depura o seu olhar.”

Nas aulas de francês, nada convencionais, o escritor manauara reclamava, apreensivo, que não conseguia entender direito os versos de Verlaine que seu professor lhe pedira para ler. E Delatour o tranquilizava: “Por enquanto, isso é o de menos. O que importa, agora, é encontrar uma outra voz de Verlaine, ou apenas captar o ritmo e a melodia de casa verso.” Gostei muito dessa ideia de o leitor emprestar sua voz ao texto, transformando-o em seu timbre. Já Hatoum compreendera que essa maneira de ler e adentrar num outro idioma (e cultura) era a forma preferida de viajar de Delatour. Não o mochileiro pé-na-estrada, em busca de aventuras e mistérios, mas sim um mergulhador na cultura e realidade do outro, como forma de aprender. E, para isso, é necessário saber o tempo das coisas, as pausas necessárias para entrar na mata fechada de uma outra cultura, de uma outra subjetividade, e confrontar sua identidade pelo contraste com a alteridade inesperada que está adiante, no caminho. E este não precisa ser necessariamente uma estrada concreta. Pode muito bem surgir do universo subjetivo de leituras, como quando se dá uma outra voz a Verlaine. Embora fosse um viajante de aeroporto, gare e porto, acenando adeus com seu chapéu aos que ficavam pelo caminho, Delatour também viajava pelas páginas de livros.

Para quem foi forjado nos tempos do livro e o exercício da leitura era uma espécie de sortilégio delirante, essas considerações são óbvias, a ponto de não pararmos para pensar sobre elas. Mas para aqueles nascidos e criados na era digital, talvez soe um tanto enigmático o fato quase sobrenatural de que os livros também escolhem seus leitores, como a floresta de Sapaim, é preciso esperar que a obra se abra a você, para que se dê a relação. Quantas vezes, por exemplo, peguei o Grande Sertão: Veredas e desisti, até que conseguisse atravessar o Liso do Sussuarão sem morrer de sede? Abandonei muitas leituras simplesmente porque não me entendi com o livro nas mãos. Depois, transcorrido o milagre do tempo, pude degustar o sabor único, como uma iguaria rara, que ficara reservada para o momento preciso.

Manduka (na foto acima) foi, nesse sentido, uma espécie de xamã para mim. Nascido com o dom da voz divina, capaz de colocar drama e sutileza na narração, gostava de ler em voz alta para os amigos, como se fizesse a leitura de uma peça de teatro, dando vida aos personagens e ao enredo. Nunca vou esquecer a tarde em que ele leu para mim o início de Pedro Páramo, fazendo as vozes do narrador e protagonista e de sua mãe moribunda, fazendo-o jurar que procuraria o pai que os abandonara, um tal de Pedro Páramo, que vivia em Comala. Essa narração foi como se Manduka me pegasse pelas mãos e me conduzisse à floresta de Juan Rulfo. Lembro-me também de sua imitação perfeita de Bandeira, recitando de cor a Evocação do Recife, ressuscitando o velho poeta com uma precisão assombrosa.

A morte prematura de Manduka, meu irmão mais velho, me privou dessa rara convivência, dessa sutileza amorosa, formadora de alma, com ares analógicos de século XIX, quando as ocorrências da vida se materializam nas conversas de botequim, nas aulas de francês com estrangeiros gigantes, nas cozinhas e bibliotecas de sobrados coloniais de Manaus, nos encontros de poetas pela boemia de esquecidas cidades tropicais. A relação entre gerações tinha um caráter tutorial, formador, onde a experiência era mediada pela imaginação literária. Um universo tão distinto da atual solidão das redes sociais e mensagens instantâneas, restritas a esparsos caracteres, onde não cabe a experiência humana.

[1] Hatoum, Milton. Reflexão sobre uma viagem sem fim. São Paulo. Revista USP, nº 13, 1992.

História do Clube da Esquina

Entrevista ao Blog de Renato Prelorentzou, do jornal Estado de S.Paulo, junho de 2018, por ocasião do lançamento do livro “Milton Nascimento e Lô Borge: Clube da Esquina”, da coleção O livro do disco, da editora Cobogó.

história do Clube da Esquina

Livro conta os bastidores e o contexto histórico do clássico que Milton Nascimento e Lô Borges lançaram no início dos anos 1970

Renato Prelorentzou  / 08 Junho 2018 | 09h50 / Estado de S.Paulo

Paulo Thiago de Mello tinha uns 12 anos quando ouviu o LP do Clube da Esquina pela primeira vez, logo no ano de seu lançamento, 1972. A história de como o álbum marcou sua vida e a música brasileira ele a conta no livro Milton Nascimento e Lô Borges – Clube da Esquina, que acaba de sair pela coleção Livro do Disco, da Editora Cobogó.

Jornalista e doutor em Antropologia, Paulo mistura suas memórias e impressões pessoais com análises históricas e sociológicas para entregar uma interpretação a meio caminho entre a crítica acadêmica e o relato autobiográfico.

Na conversa abaixo, ele fala sobre os caminhos da escrita de seu livro, a originalidade das letras e das músicas do Clube da Esquina, o momento histórico em que Lô e Milton compuseram um dos álbuns mais antológicos da MPB.

 

Não deve ter sido fácil contar a história de um disco com que as pessoas têm uma relação tão pessoal…  

Foi, de fato, um desafio. Minha ideia inicial era passar uma tarde com o Milton, ouvindo o disco e anotando seus comentários e sua memória. Isso acabou inviabilizado pela dificuldade de agenda e, em certa medida, pela timidez do Bituca.

Me vi então diante do desafio de escrever sobre algo que de certo modo não era novidade para ninguém daquela época e até para as gerações mais novas que amam o disco. Por isso escrevi em primeira pessoa, dando um tom mais íntimo sobre o impacto do Clube da Esquina num jovem que tinha 12 anos no seu lançamento.

Achei que um tom mais, digamos, impressionista traria uma luz de novidade e, ao mesmo tempo, algo com que as pessoas poderiam se relacionar, já que cada uma tem suas histórias pessoais com o disco.

Você fala do Clube da Esquina como uma mistura do rural com o urbano, do tradicional com o moderno, do pop com a poesia marginal, da viola caipira com a guitarra dos Beatles. O curioso é que, misturando vários modos de análise, você acaba reproduzindo no livro o mesmo sincretismo do disco. 

Procurei costurar o livro todo mantendo um equilíbrio entre as opções de narrativas. Assim, descrever o contexto do disco relacionando-o com eventos históricos e culturais atenuaria o tom intimista e confessional da primeira pessoa.

Além disso, uma das teses do livro é o tipo de sincretismo que o Clube propôs, uma miscigenação sofisticada, diferenciando-se, nesse aspecto, do tropicalismo, que aboliu fronteiras estéticas entre alta e baixa cultura.

A originalidade do Clube está justamente nos blends de altíssimo nível que utiliza para criar seu som: a MPB clássica, a bossa nova, o tropicalismo, o jazz fusion e o rock dos Beatles de sua fase psicodélica. Isso somado à toada mineira, que aparece sobretudo nas melodias relativamente simples, turbinadas por uma harmonização sofisticadíssima, causando uma estranheza interessante e inédita aos ouvidos da época.

Mais que uma história sobre o Clube da Esquina, seu livro é uma interpretação personalíssima sobre a época, baseada em suas memórias, impressões e sentimentos e também na sociologia, na antropologia, na psicologia, na crítica literária e musical. Como sua trajetória pessoal e acadêmica guiou a pesquisa e escrita do livro?

Minha trajetória pessoal acabou sendo a chave para escrever um livro minimamente original, nascido da costura dessa interlocução entre o tom autobiográfico e a história do disco.

Como antropólogo e acadêmico, também pude me beneficiar de outras lentes para analisar as sincronicidades, os ritos e os mitos do grupo. Em alguns momentos, me senti fazendo uma dissertação, no sentido de examinar um objeto a partir de uma vasta bibliografia e costurar conexões e leituras possíveis a partir desse material.

No início dos anos 1970, sob ditadura, repressão e censura, o Brasil vivia um clima de acirramento político que teve efeitos decisivos sobre a produção musical e cultural. É possível traçar paralelos entre aqueles tempos e os nossos?

O que ocorre hoje é completamente distinto. Se a repressão naquela época empurrou artistas diversos para produções criativas, hoje a crise que abala o Brasil não consegue mobilizar da mesma forma.

Posso pensar em várias razões sociológicas para isso, como o nível de repressão dos anos de chumbo, que era de fato asfixiante num patamar que não se compara aos problemas de hoje. Sem alternativa, os artistas reagiram como puderam, via desbunde, canção de protesto e até mesmo exílio.

Hoje a luta está mais fragmentada. Se, por um lado, isso é bom porque amplia o debate para além da questão ideológica entre esquerda e direita, passando a incluir questões de identidade, como gênero, racismo etc., por outro, a mobilização que poderia gerar uma onda de originalidade como vimos nos anos de chumbo encontra-se igualmente fragmentada, tornando difícil o surgimento de movimentos, coletivos etc.

Mas creio que isso é algo cíclico e se articula dialeticamente com outras forças, como a revolução tecnológica e as conjunturas políticas, sociais e econômicas.

Por falar em revoluções tecnológicas, o que mudou da época do Clube da Esquina para cá? 

A revolução tecnológica, que fez a música sair do LP para o streaming na nuvem, mudou completamente o mercado fonográfico, assim como a forma de consumir música. As novas tecnologias pulverizaram as formas de produção artística abrindo caminhos, mas a indústria fonográfica e a mídia reagiram conservadoramente, fechando ou dirigindo os espaços de divulgação para nichos restritos e comprovadamente lucrativos.

Não há mais apostas em originalidade, o mercado procura apenas reiterar o que já foi testado com sucesso financeiro. Os festivais do fim dos anos 1960 abriam espaço real para propostas originais e inusitadas, como os experimentalismos de Walter Franco, Itamar Assumpção e Arrigo Barnabé, por exemplo, e também para uma música mais refinada, como as canções de Milton. Hoje, os realities shows servem apenas para confirmar as apostas das gravadoras.

A originalidade continua existindo, e com força, mas está restrita a espaços alternativos e produções caseiras. Hoje, duplas sertanejas pop e axé music dominam o mercado. Nada contra, mas o problema é que as produções alternativas não chegam ao público.

Você diz que Lô Borges foi “o passaporte para o futuro de Milton Nascimento”, pois a parceria fez com que Milton tomasse rumos mais diversos e experimentais na carreira. Por outro lado, Lô talvez não tenha reencontrado a inventividade dos seus dias de Clube… 

É verdade que Lô pagou um preço por fazer, aos 18 anos, um disco icônico ao lado de Milton. Além disso, se o Clube da Esquina superou certa má vontade da crítica à época de seu lançamento, Lô foi relegado a segundo plano pela mídia. Por isso, é interessante ver como atualmente ele se tornou uma referência para músicos da nova geração e como seus shows têm lotado o Circo Voador. No Clube, seu papel foi fundamental, o que diz muito da sensibilidade do Milton em apostar nele para fazer um álbum duplo.

Muitas das letras do Clube são uma celebração da amizade e da juventude. Ao mesmo tempo, carregam um peso do passado e falam da “aspereza do momento”. Como se explica esse embate entre a esperança e a melancolia, a pulsão de futuro e a nostalgia?

A ditadura militar impunha um elemento de urgência. E isso é algo que quem não viveu aqueles dias pode ter dificuldade de entender. A asfixia provocada pela ditadura tornava a vida urgente.

Não à toa, a metáfora da estrada, a tópica da viagem, está presente em quase todas as canções do Clube. Era um impulso ao futuro, onde haveria redenção do sufoco daqueles dias, mas também às referências do passado, que davam um sentido de herança cultural, patrimônio…

E, já que estávamos todos na estrada, por que não mudar o mundo? Havia sobretudo uma tensão entre as possibilidades infinitas da juventude que se afirmava com voz própria e a impossibilidade total imposta pelo regime militar. A melancolia, creio, vem mais dessa tensão do que de um mero sentimento de nostalgia.

Você conta que muitas das canções do disco nasceram na casa onde Lô, Milton, Beto Guedes e outros integrantes do Clube se isolaram em Niterói. É só assim que se fazem as obras de arte? Em isolamento, concentração, numa conjuntura rara e favorável, como num encontro feliz entre amigos?

Acho que o disco sairia independentemente do local onde foi feito. Além da casa em Piratininga, tinha também o núcleo de Belo Horizonte e, na hora h, o próprio estúdio, onde foram acrescentados os arranjos e finalizações.

Mas, de fato, foi o acaso feliz do encontro dessas almas na Belo Horizonte dos anos 1960 que possibilitou a costura de uma amizade que é, esta sim, a base dessa obra. Nesse sentido, o que possibilitou o Clube foi algo único, um caso de serendipity.

Há exemplos de outros movimentos que surgiram a partir de encontros ao acaso. Mas é claro também que a conjuntura da época, com toda sua riqueza e seu terror, com toda sua juventude e seu assombro, criou o ambiente propício para que tal encontro se desse.

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