Outono

5 dezembro 2018.

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Nesses dias letárgicos, quando uma etapa inédita da vida se abre, me encontro num redemoinho, no meio de furacões inéditos. Avisto, com surpreendente serenidade, uma espécie de outono, o couro da pele ajustado às perdas e à solidão. Após tanto luto, não desconheço mais a resignação. Passeio em campos de nostalgia como um viciado, num êxtase quase lisérgico, mas saboreio igualmente o agora com surpreendente avidez. Uma esperança suave como um pressentimento traz um fio de infância, quando me sentia integrado ao universo. Uma fresta de luz, que me atrai como um sol.

 

Um quitinete à lá Lévi-Strauss

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Claude Lévi-Strauss possuía 12 mil livros na biblioteca de sua casa, no 16eme arrondissement, além de objetos de inúmeras culturas coletados por ele e outros etnólogos, a tal ponto que, segundo o pai da antropologia estrutural, ele poderia dar a volta ao mundo sem sair daquela sala. Um mundo não convencional ou turístico, acrescente-se.

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Mil vezes mais modesto, tenho em torno de 1.200 livros, que extrapolam o espaço do quarto-e-sala alugado em Botafogo, onde vivo, e que fazem com que a casa tenha um ar de bagunça estrutural, para continuarmos no universo de nosso antropólogo, morto em 2009, aos 101 anos. Tenho algumas peças etnográficas, como cestos ianomâmi, esteira kaiapó; um pedaço de janela do Museu Nacional, que ia ser queimado, em 1994, devido a uma infestação de cupim (podemos dizer que esta peça escapou duas vezes do fogo…); uma estatueta da Ilha de Páscoa, outra em ébano, da Nigéria, comprada num mercado de pulgas, em Nova York; além de algumas máscaras africanas e uma sandinista.

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Os quadros são de amigos, inclusive alguns raros de Manduka, do artista argentino Norberto Onofre, e fotos e desenhos meus, emoldurados. Mas o grosso é composto de livros, CDs e discos, alguns deles raros.  Enquanto Lévi-Strauss possuía uma escrivaninha situada à esquerda da sala, próximo à janela, eu tenho uma mesa de madeira que serve de escrivaninha e de mesa de jantar, quando recebo os amigos, o que tem ocorrido cada vez mais raramente, já que esses objetos acabaram por ocupar toda a casa, sem que eu percebesse.

É em meio a esse universo sem fim que tenho passado boa parte do meu tempo.

 

Histórias de livros

c36c031e9abd443da69ca3cf3cf3f9b0 (2)Adoro histórias de livros, talvez por isso tenha tantos em casa e viva sempre fuçando em sebos e livrarias atrás de algo interessante. Numa dessas incursões, esbarrei num livro que uniu duas paixões minhas: literatura e antropologia. Com respeito a essas duas disciplinas, sou fã do escritor Paul Auster, autor, entre outros, de O inventor da solidão; e do antropólogo Pierre Clastres, autor de A sociedade contra o Estado e Arqueologia da violência. O primeiro, escritor, tem um tom meio etnográfico em sua forma de narrar; o segundo, antropólogo, traz uma prosa literária à sua etnografia.

Pois bem, há muitos anos, na década de 1990, estava em Nova York, garimpando as estantes empoeiradas de um velho sebo, ali na altura da rua 55 ou 56, quando me deparei com um relato etnográfico do Clastres sobre os índios Guayaki, um grupo nômade da região da Bacia do Plata. Não conhecia esse trabalho do antropólogo francês, que estava traduzido para o inglês.

Quando examinei mais de perto o livro, vi que a tradução do francês tinha sido feita por mais ninguém menos que Paul Auster. E, lendo a introdução ali mesmo, em pé, na livraria, notei que havia na tradução elementos estilísticos de seus romances. Descobri que o escritor nova-iorquino não só é fluente em francês, como era amigo pessoal de Clastres. Não me recordo mais se ele decidiu traduzir o livro por vontade própria ou por pedido do amigo antropólogo. Só me lembro que a decisão de verter para o inglês foi tomada de forma direta, sem mediação ou compromisso com alguma editora.

Quando o texto em inglês ficou pronto, o próprio Auster o levou a algumas editoras americanas, e os originais ficaram para avaliação numa pequena casa editorial dedicada a relatos etnográficos, incluídos aí etnologia indígena da América do Sul. Acontece que, no meio desse processo, a editora fechou as portas e Auster demorou para ir atrás dos originais da tradução. Quando finalmente foi buscar o texto, descobriu que ele havia sido extraviado. Desaparecera, ao que parece, no meio da confusão judicial da falência. Se não me falha a memória, o Clastres morreu nesse período, sem ver aquala obra publicada em inglês.

Alguns anos mais tarde, Auster estava numa livraria de San Francisco, quando o livreiro o reconheceu e disse que tinha algo para ele. Curioso, Auster o seguiu ao escritório da livraria e recebeu um envelope com centenas de páginas datilografadas. Eram os originais da versão em inglês do livro do amigo falecido. Auster já havia desistido de editar o livro, mas tomou aquele reencontro como um sinal e batalhou pela publicação do livro, cujo exemplar estava em minhas mãos naquele sebo de Nova York. Comprei a versão em inglês e, muito tempo depois, em 2011, quando fazia pós-doc em Paris, comprei o original em francês do livro de Clastres, cuja narrativa sobre a vida desses índios é maravilhosa.

Sortilégio dos livros

manduka02dNuma entrevista há muitos anos, Egberto Gismonti narrou seu encontro com o pajé Sapaim, durante visita à aldeia Kamaiurá, na região do alto Rio Xingu. Um dia, o velho xamã o convidou para ir à floresta que circundava a aldeia. Ao chegarem ao limite da taba, Sapaim conteve o compositor que, apressadamente seguia para a mata fechada. “Espere”, afirmou sem explicação e ficou contemplando o verde. Passado alguns minutos, ele disse: “Agora sim. Vamos!”. E ambos seguiram então mato adentro. Ao comentar esse relato, Egberto Gismonti concluiu que aquela pausa era necessária para esperar o chamado da mata. Só após a floresta se abrir é que podiam entrar. O que para Sapaim era a expressão do tempo naturalizada pelo dia a dia, para o músico visitante, vindo da cidade grande, ganhava ares de sortilégio, como um ritual necessário para que ambos se preparassem para mudar de ambiente.

Pensei sobre isso outro dia, ao ler um artigo de Milton Hatoum[1] sobre seu encontro com figuras singulares na Manaus de sua juventude ancoradas no sobrado neocolonial da senhora Yasmine, no velho Centro de Manaus. Em especial, o “excêntrico” Monsieur Felix Delatour, um bretão viajante, que sofria de gigantismo, e que se tornara seu professor de francês. Havia ainda o sempre ausente senhor Verne, amigo dos índios e um ativista ambiental avant la lettre, naqueles anos 1950. A própria Yasmine, a matriarca do sobrado, tinha como língua materna o árabe, embora preferisse rezar em francês. Sagaz, ela distinguia os dois estrangeiros com precisão: “Verne viaja no espaço; Delatour, no tempo”, esclarecia ao jovem Hatoum. Já o gigante bretão resumia o duplo benefício de viajar pelo mundo: “além de tornar o ser humano mais silencioso, depura o seu olhar.”

Nas aulas de francês, nada convencionais, o escritor manauara reclamava, apreensivo, que não conseguia entender direito os versos de Verlaine que seu professor lhe pedira para ler. E Delatour o tranquilizava: “Por enquanto, isso é o de menos. O que importa, agora, é encontrar uma outra voz de Verlaine, ou apenas captar o ritmo e a melodia de casa verso.” Gostei muito dessa ideia de o leitor emprestar sua voz ao texto, transformando-o em seu timbre. Já Hatoum compreendera que essa maneira de ler e adentrar num outro idioma (e cultura) era a forma preferida de viajar de Delatour. Não o mochileiro pé-na-estrada, em busca de aventuras e mistérios, mas sim um mergulhador na cultura e realidade do outro, como forma de aprender. E, para isso, é necessário saber o tempo das coisas, as pausas necessárias para entrar na mata fechada de uma outra cultura, de uma outra subjetividade, e confrontar sua identidade pelo contraste com a alteridade inesperada que está adiante, no caminho. E este não precisa ser necessariamente uma estrada concreta. Pode muito bem surgir do universo subjetivo de leituras, como quando se dá uma outra voz a Verlaine. Embora fosse um viajante de aeroporto, gare e porto, acenando adeus com seu chapéu aos que ficavam pelo caminho, Delatour também viajava pelas páginas de livros.

Para quem foi forjado nos tempos do livro e o exercício da leitura era uma espécie de sortilégio delirante, essas considerações são óbvias, a ponto de não pararmos para pensar sobre elas. Mas para aqueles nascidos e criados na era digital, talvez soe um tanto enigmático o fato quase sobrenatural de que os livros também escolhem seus leitores, como a floresta de Sapaim, é preciso esperar que a obra se abra a você, para que se dê a relação. Quantas vezes, por exemplo, peguei o Grande Sertão: Veredas e desisti, até que conseguisse atravessar o Liso do Sussuarão sem morrer de sede? Abandonei muitas leituras simplesmente porque não me entendi com o livro nas mãos. Depois, transcorrido o milagre do tempo, pude degustar o sabor único, como uma iguaria rara, que ficara reservada para o momento preciso.

Manduka (na foto acima) foi, nesse sentido, uma espécie de xamã para mim. Nascido com o dom da voz divina, capaz de colocar drama e sutileza na narração, gostava de ler em voz alta para os amigos, como se fizesse a leitura de uma peça de teatro, dando vida aos personagens e ao enredo. Nunca vou esquecer a tarde em que ele leu para mim o início de Pedro Páramo, fazendo as vozes do narrador e protagonista e de sua mãe moribunda, fazendo-o jurar que procuraria o pai que os abandonara, um tal de Pedro Páramo, que vivia em Comala. Essa narração foi como se Manduka me pegasse pelas mãos e me conduzisse à floresta de Juan Rulfo. Lembro-me também de sua imitação perfeita de Bandeira, recitando de cor a Evocação do Recife, ressuscitando o velho poeta com uma precisão assombrosa.

A morte prematura de Manduka, meu irmão mais velho, me privou dessa rara convivência, dessa sutileza amorosa, formadora de alma, com ares analógicos de século XIX, quando as ocorrências da vida se materializam nas conversas de botequim, nas aulas de francês com estrangeiros gigantes, nas cozinhas e bibliotecas de sobrados coloniais de Manaus, nos encontros de poetas pela boemia de esquecidas cidades tropicais. A relação entre gerações tinha um caráter tutorial, formador, onde a experiência era mediada pela imaginação literária. Um universo tão distinto da atual solidão das redes sociais e mensagens instantâneas, restritas a esparsos caracteres, onde não cabe a experiência humana.

[1] Hatoum, Milton. Reflexão sobre uma viagem sem fim. São Paulo. Revista USP, nº 13, 1992.

História do Clube da Esquina

Entrevista ao Blog de Renato Prelorentzou, do jornal Estado de S.Paulo, junho de 2018, por ocasião do lançamento do livro “Milton Nascimento e Lô Borge: Clube da Esquina”, da coleção O livro do disco, da editora Cobogó.

história do Clube da Esquina

Livro conta os bastidores e o contexto histórico do clássico que Milton Nascimento e Lô Borges lançaram no início dos anos 1970

Renato Prelorentzou  / 08 Junho 2018 | 09h50 / Estado de S.Paulo

Paulo Thiago de Mello tinha uns 12 anos quando ouviu o LP do Clube da Esquina pela primeira vez, logo no ano de seu lançamento, 1972. A história de como o álbum marcou sua vida e a música brasileira ele a conta no livro Milton Nascimento e Lô Borges – Clube da Esquina, que acaba de sair pela coleção Livro do Disco, da Editora Cobogó.

Jornalista e doutor em Antropologia, Paulo mistura suas memórias e impressões pessoais com análises históricas e sociológicas para entregar uma interpretação a meio caminho entre a crítica acadêmica e o relato autobiográfico.

Na conversa abaixo, ele fala sobre os caminhos da escrita de seu livro, a originalidade das letras e das músicas do Clube da Esquina, o momento histórico em que Lô e Milton compuseram um dos álbuns mais antológicos da MPB.

 

Não deve ter sido fácil contar a história de um disco com que as pessoas têm uma relação tão pessoal…  

Foi, de fato, um desafio. Minha ideia inicial era passar uma tarde com o Milton, ouvindo o disco e anotando seus comentários e sua memória. Isso acabou inviabilizado pela dificuldade de agenda e, em certa medida, pela timidez do Bituca.

Me vi então diante do desafio de escrever sobre algo que de certo modo não era novidade para ninguém daquela época e até para as gerações mais novas que amam o disco. Por isso escrevi em primeira pessoa, dando um tom mais íntimo sobre o impacto do Clube da Esquina num jovem que tinha 12 anos no seu lançamento.

Achei que um tom mais, digamos, impressionista traria uma luz de novidade e, ao mesmo tempo, algo com que as pessoas poderiam se relacionar, já que cada uma tem suas histórias pessoais com o disco.

Você fala do Clube da Esquina como uma mistura do rural com o urbano, do tradicional com o moderno, do pop com a poesia marginal, da viola caipira com a guitarra dos Beatles. O curioso é que, misturando vários modos de análise, você acaba reproduzindo no livro o mesmo sincretismo do disco. 

Procurei costurar o livro todo mantendo um equilíbrio entre as opções de narrativas. Assim, descrever o contexto do disco relacionando-o com eventos históricos e culturais atenuaria o tom intimista e confessional da primeira pessoa.

Além disso, uma das teses do livro é o tipo de sincretismo que o Clube propôs, uma miscigenação sofisticada, diferenciando-se, nesse aspecto, do tropicalismo, que aboliu fronteiras estéticas entre alta e baixa cultura.

A originalidade do Clube está justamente nos blends de altíssimo nível que utiliza para criar seu som: a MPB clássica, a bossa nova, o tropicalismo, o jazz fusion e o rock dos Beatles de sua fase psicodélica. Isso somado à toada mineira, que aparece sobretudo nas melodias relativamente simples, turbinadas por uma harmonização sofisticadíssima, causando uma estranheza interessante e inédita aos ouvidos da época.

Mais que uma história sobre o Clube da Esquina, seu livro é uma interpretação personalíssima sobre a época, baseada em suas memórias, impressões e sentimentos e também na sociologia, na antropologia, na psicologia, na crítica literária e musical. Como sua trajetória pessoal e acadêmica guiou a pesquisa e escrita do livro?

Minha trajetória pessoal acabou sendo a chave para escrever um livro minimamente original, nascido da costura dessa interlocução entre o tom autobiográfico e a história do disco.

Como antropólogo e acadêmico, também pude me beneficiar de outras lentes para analisar as sincronicidades, os ritos e os mitos do grupo. Em alguns momentos, me senti fazendo uma dissertação, no sentido de examinar um objeto a partir de uma vasta bibliografia e costurar conexões e leituras possíveis a partir desse material.

No início dos anos 1970, sob ditadura, repressão e censura, o Brasil vivia um clima de acirramento político que teve efeitos decisivos sobre a produção musical e cultural. É possível traçar paralelos entre aqueles tempos e os nossos?

O que ocorre hoje é completamente distinto. Se a repressão naquela época empurrou artistas diversos para produções criativas, hoje a crise que abala o Brasil não consegue mobilizar da mesma forma.

Posso pensar em várias razões sociológicas para isso, como o nível de repressão dos anos de chumbo, que era de fato asfixiante num patamar que não se compara aos problemas de hoje. Sem alternativa, os artistas reagiram como puderam, via desbunde, canção de protesto e até mesmo exílio.

Hoje a luta está mais fragmentada. Se, por um lado, isso é bom porque amplia o debate para além da questão ideológica entre esquerda e direita, passando a incluir questões de identidade, como gênero, racismo etc., por outro, a mobilização que poderia gerar uma onda de originalidade como vimos nos anos de chumbo encontra-se igualmente fragmentada, tornando difícil o surgimento de movimentos, coletivos etc.

Mas creio que isso é algo cíclico e se articula dialeticamente com outras forças, como a revolução tecnológica e as conjunturas políticas, sociais e econômicas.

Por falar em revoluções tecnológicas, o que mudou da época do Clube da Esquina para cá? 

A revolução tecnológica, que fez a música sair do LP para o streaming na nuvem, mudou completamente o mercado fonográfico, assim como a forma de consumir música. As novas tecnologias pulverizaram as formas de produção artística abrindo caminhos, mas a indústria fonográfica e a mídia reagiram conservadoramente, fechando ou dirigindo os espaços de divulgação para nichos restritos e comprovadamente lucrativos.

Não há mais apostas em originalidade, o mercado procura apenas reiterar o que já foi testado com sucesso financeiro. Os festivais do fim dos anos 1960 abriam espaço real para propostas originais e inusitadas, como os experimentalismos de Walter Franco, Itamar Assumpção e Arrigo Barnabé, por exemplo, e também para uma música mais refinada, como as canções de Milton. Hoje, os realities shows servem apenas para confirmar as apostas das gravadoras.

A originalidade continua existindo, e com força, mas está restrita a espaços alternativos e produções caseiras. Hoje, duplas sertanejas pop e axé music dominam o mercado. Nada contra, mas o problema é que as produções alternativas não chegam ao público.

Você diz que Lô Borges foi “o passaporte para o futuro de Milton Nascimento”, pois a parceria fez com que Milton tomasse rumos mais diversos e experimentais na carreira. Por outro lado, Lô talvez não tenha reencontrado a inventividade dos seus dias de Clube… 

É verdade que Lô pagou um preço por fazer, aos 18 anos, um disco icônico ao lado de Milton. Além disso, se o Clube da Esquina superou certa má vontade da crítica à época de seu lançamento, Lô foi relegado a segundo plano pela mídia. Por isso, é interessante ver como atualmente ele se tornou uma referência para músicos da nova geração e como seus shows têm lotado o Circo Voador. No Clube, seu papel foi fundamental, o que diz muito da sensibilidade do Milton em apostar nele para fazer um álbum duplo.

Muitas das letras do Clube são uma celebração da amizade e da juventude. Ao mesmo tempo, carregam um peso do passado e falam da “aspereza do momento”. Como se explica esse embate entre a esperança e a melancolia, a pulsão de futuro e a nostalgia?

A ditadura militar impunha um elemento de urgência. E isso é algo que quem não viveu aqueles dias pode ter dificuldade de entender. A asfixia provocada pela ditadura tornava a vida urgente.

Não à toa, a metáfora da estrada, a tópica da viagem, está presente em quase todas as canções do Clube. Era um impulso ao futuro, onde haveria redenção do sufoco daqueles dias, mas também às referências do passado, que davam um sentido de herança cultural, patrimônio…

E, já que estávamos todos na estrada, por que não mudar o mundo? Havia sobretudo uma tensão entre as possibilidades infinitas da juventude que se afirmava com voz própria e a impossibilidade total imposta pelo regime militar. A melancolia, creio, vem mais dessa tensão do que de um mero sentimento de nostalgia.

Você conta que muitas das canções do disco nasceram na casa onde Lô, Milton, Beto Guedes e outros integrantes do Clube se isolaram em Niterói. É só assim que se fazem as obras de arte? Em isolamento, concentração, numa conjuntura rara e favorável, como num encontro feliz entre amigos?

Acho que o disco sairia independentemente do local onde foi feito. Além da casa em Piratininga, tinha também o núcleo de Belo Horizonte e, na hora h, o próprio estúdio, onde foram acrescentados os arranjos e finalizações.

Mas, de fato, foi o acaso feliz do encontro dessas almas na Belo Horizonte dos anos 1960 que possibilitou a costura de uma amizade que é, esta sim, a base dessa obra. Nesse sentido, o que possibilitou o Clube foi algo único, um caso de serendipity.

Há exemplos de outros movimentos que surgiram a partir de encontros ao acaso. Mas é claro também que a conjuntura da época, com toda sua riqueza e seu terror, com toda sua juventude e seu assombro, criou o ambiente propício para que tal encontro se desse.

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Sonho com Pessoa

11 fevereiro 2018.

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Tenho tido problemas para dormir. Algo inédito em minha vida. Nos últimos anos, passei a sofrer com variadas formas de insônia, sobretudo no verão carioca, sem a proteção da camada de ozônio. Há dias que desperto às 3h da madrugada e não durmo mais; em outros, acordo a cada meia hora; e há aquelas vezes em que me levanto da cama às 10h, depois de adormecer já dia claro. Há ocasiões em que simplesmente apago, exausto. Outro dia, uma variação inédita: acordei às 5h30, lúcido e cansado. Liguei a TV e estava passando o belo filme de Marcio Debellian, O vento lá fora, que apresenta o encontro de Cleonice Berardinelli e Maria Bethânea com Fernando Pessoa por meio de leituras e comentários. Deixei então os versos do poeta diluírem lentamente as couraças que atormentam o meu sono (e minha vigília). Que delírio! Assisti àquela leitura deitado em minha cama, e o sono veio vindo, vindo, e se instalou, com as vozes de Cleonice e Bethânea soando cada vez mais à distância, como um mantra em meio à vertigem onírica que foi me envolvendo suavemente.

Sonhei então que encontrava Pessoa, em pessoa. Vestido de terno escuro, de corte inglês, impecável. O chapéu, igualmente negro e de aba larga, fazendo sombra ao rosto, donde se destacavam os óculos redondos de aro fino e o bigodinho lusitano, tão up to date naquela era de esplendor da razão, um período que afrontava o sentimento e a intuição, a ponto de o poeta ter que fingir que é dor, a dor que deveras sente… Mas Pessoa esboçava um meio sorriso, expressão da inteligência híbrida dos gênios, e me convidou a caminhar com ele pela calçada daquela metrópole, ponto de encontro de todos os estrangeiros. Demos alguns passos e ele me apontou um cobertor esfarrapado, ao chão, quase à esquina, e me disse com voz solene de poeta:

“Amei tanto este cobertor e mantive-o por tanto tempo, até que as traças o devoraram. E, agora que ele se foi, esqueci-me completamente dele!”

Olhei, comovido, para o farrapo jogado ao rés do lixo, e reconheci meu próprio cobertor, com o qual minha mãe me cobrira na infância e me deparei só em meio à cidade… então acordei. Sentia uma tristeza resignada, mas estava mais leve. Pensei nos ciclos de vida e morte. Atribuí o sonho à perda de um amigo no voo da Chapecoense e percebi que a tragédia que comoveu o país remexeu e acelerou o processo de cicatrização do luto que venho cozinhando inconscientemente nos últimos três anos, após as mortes de meu pai e minha mãe, com intervalo de um mês. Freud tem razão: o luto é uma dor que dói fora de nós; já a melancolia, dói dentro.

Acho que a bela metáfora do cobertor no sonho, a mensagem que Pessoa, com seu sorriso sacana, me passou foi exatamente esse processo de exumação, de resignação e de compreensão da perda. Processo sofrido, doloroso, mas que está fora, faz parte do ciclo natural da vida. E o cobertor que protege a infância, como algo mágico, aconchegante e poderoso, como o amor da mãe, se desfaz, puído pelo tempo. Mas, se deixarmos, a vida nos toma pelas mãos e seguimos adiante.

Clube da Esquina

4 fevereiro 2018.

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A capa do Clube da Esquina, sem o nome do disco e dos artistas, revolucionou a iconografia da MPB. Foto: Cafi

Não sei se de fato minha geração é aquela in between, forjada no hiato de grandes momentos ou se todas as gerações trazem essa sensação de bonde perdido da História. Não sei nem mesmo se a síntese grandiosa que marcará o nosso tempo só poderá ter contornos “quando for depois, e não estivermos mais aqui”, ou, se estivermos, não nos importemos mais com isso, em nossos dias letárgicos de desaparecimento.

Quando me percebi gente, os Beatles estavam se separando; Hendrix e Joplin já haviam desencarnados em seus excessos; Woodstock deixara apenas resíduos de lama; Caetano e Gil já tinham sido vaiados; Chega de saudade já enterrara o passado grandiloquente do cantor empostado; e compositores, poetas e escritores viviam o desterro. Estávamos asfixiados por uma ditadura militar brutal, conspirando em busca de brechas para respirar.

Jovem demais, entrando na adolescência, via minha admiração oscilar entre a luta armada e o desbunde. Flertava com os dois campos, cheio de admiração por Che e Bob Dylan. Sobrevivia aos dias nesse campo intermediário, que me permitia transitar por universos tão díspares e desfrutar, meio esquizofrenicamente, de suas verdades e valores.

Então, aos 12 anos, saiu o Clube da Esquina, a experiência sonora e poética de Bituca e Lô Borges. Era a minha trilha sonora e de muitos de meus contemporâneos. Para além da qualidade musical e da densidade poética das letras, repletas de metáforas de estrada, propícias à ideia de exílio. Era esse sentido mais geral, além da qualidade técnica, que o disco duplo apresentava à minha geração.

A imagem da capa registrada por Cafi traduzia tudo isso: tínhamos, enfim, nossa existência confirmada por aquela música, que mesclava antropofagicamente o cool jazz e a bossa nova dos anos 1950, com o rock dos Beatles e a toada mineira, incluindo ainda pitadas de uma sonoridade latino-americana, até então ausente no país. O Clube nos deu nossa trilha sonora e, com ela, o sentido de pertencimento e identidade, e nos preparou para o que viria depois.